Congelando a mudança climática

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Rogério Marson Rodrigues, da Eletrofrio, e Ole Nielsen e Sérgia Oliveira, da ONUDI, na inauguração da loja Condor.

Escrito por Daria Shumilova e traduzido do inglês por Danilo de Oliveira Pereira

À medida que o clima global se aquece, aumenta também a demanda por refrigeração. Mas quanto mais resfriarmos alimentos nos frigoríficos e refrescarmos edifícios com ar-condicionado, mais quente ficará o ar do lado de fora. Essa é uma espiral catastrófica.

Geladeiras e aparelhos de ar-condicionado não só esquentam a si mesmos - algo que você sabe se já tocou a parte de trás de uma geladeira ou esteve próximo a um exaustor de ar-condicionado – mas eles também consomem altas quantidades de eletricidade, geralmente produzida pela queima de combustíveis fósseis.

Como se isso não bastasse, a refrigeração representa outro risco ainda maior para o clima. Quando os cuidados necessários são tomados, os gases refrigerantes usados em refrigeradores permanecem dentro de um circuito fechado e são seguros. Mas se eles escapam para a atmosfera graças ao seu mau funcionamento, manutenção ou descarte inadequados, esses gases contribuem fortemente para o aquecimento global.

Durante a maior parte do século XX, os gases refrigerantes mais utilizados foram os clorofluorcarbonos (CFCs) e o hidroclorofluorocarboneto (HCFC). Mas agora eles estão em processo de serem eliminados graças a um tratado ambiental internacional, o Protocolo de Montreal, que foi estabelecido após cientistas descobrirem que esses gases danificam a camada de ozônio – responsável por proteger nosso planeta dos raios ultravioleta.

O problema é que a indústria de aquecimento, ventilação e ar condicionado (HVAC) recorreu a um outro grupo de gases como substitutos, os hidrofluorocarbonetos (HFC). Por não oferecerem risco à camada de ozônio, esses gases têm sido amplamente utilizados em refrigeradores desde a década de 1990. No entanto, a maioria dos gases HFC tem um enorme potencial de aquecimento global, com um efeito que é milhares de vezes mais poderoso que o gás carbônico em termos de retenção de calor na atmosfera.

A Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal, que entrou em vigor em 1 de janeiro de 2019, ajudará a reduzir a produção e o consumo de HFCs, mas qual será a alternativa escolhida pela indústria de aquecimento, ventilação e ar-condicionado?

Engenheiros da empresa brasileira Eletrofrio encontraram uma solução. Com o apoio do Ministério do Meio Ambiente do Brasil e da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI), a Eletrofrio desenvolveu uma nova tecnologia de resfriadores que utiliza o propano como gás refrigerante. O gás não oferece risco à camada de ozônio e tem um potencial de aquecimento global muito baixo. O vídeo abaixo fornece uma explicação mais detalhada da tecnologia.

A tecnologia de refrigeração de propano não só combate a mudança climática, como também é até 30% mais eficiente em termos energéticos do que as tecnologias atualmente utilizadas. De acordo com a empresa lituana Freor, pioneira no uso de propano R290 em equipamentos de refrigeração comercial, “um sistema de propano opera num regime dependente da temperatura externa, tornando mais fácil garantir o consumo de eletricidade ideal”.

A ONUDI tem auxiliado o Brasil a atender aos requisitos do plano de eliminação de HCFCs do Protocolo de Montreal desde 2014, e o país está no caminho certo para eliminar essas substâncias até 2040. Parte do projeto se concentrou no desenvolvimento de tecnologias de refrigeração que podem servir de alternativas ao uso de HCFCs e HFCs.

Com a assistência da ONUDI e financiamento do Fundo Multilateral para a Implementação do Protocolo de Montreal, a tecnologia de refrigeração de propano da Eletrofrio está sendo colocada em prática em Curitiba. No início de abril de 2019, a Supermercados Condor, uma das maiores redes de supermercados do Brasil, abriu uma loja usando apenas refrigeradores de propano para armazenar e exibir alimentos congelados.

Na abertura da loja, Pedro Joanir Zonta Condor, que fundou a rede Supermercados Condor em 1974, declarou que entrará para a história como o primeiro supermercado da América do Sul a usar a tecnologia de propano em seus equipamentos de refrigeração. Ele expressou sua esperança de que os resfriadores de propano reduzam significativamente a pegada de carbono da cadeia. “Sempre trabalhamos para melhorar continuamente a sustentabilidade e, é claro, todo progresso tecnológico que atenda à nossa consciência ecológica será usado em nossas lojas”.

O chefe da Unidade do Protocolo de Montreal da ONUDI, Ole Nielsen, também estava presente e parabenizou os envolvidos: “Tenho certeza de que vocês levarão outras companhias para a mesma direção, para o bem do nosso meio ambiente”.

Rogério Marson Rodrigues, Gerente de Engenharia da Eletrofrio, disse que é importante enfatizar a necessidade de criar um ambiente seguro para o uso dessas tecnologias. De acordo com ele, “a tecnologia em si é simples de ser explicada”. “A segurança é o principal ponto a ser discutido neste tipo de sistema de refrigeração”, acrescentou.

Elaborando sobre a questão da segurança, Ivair Soares Junior, da Eletrofrio, disse: “Um dos objetivos do projeto é evitar a manutenção dentro do supermercado. Por ser um sistema modular, se necessário, retira-se apenas o módulo em falha, levando-o para a fábrica para realizar a manutenção”.

De acordo com a gerente de projetos da ONUDI, Sérgia Oliveira, outros projetos estão sendo discutidos, juntamente com o Ministério do Meio Ambiente, a ONUDI e entidades do setor privado, com o objetivo de disponibilizar cada vez mais novas tecnologias para a proteção do meio ambiente.